Arquivos Brasileiros de Medicina Naval, Vol. 86, n. 1 (2025).
DOI:
https://doi.org/10.70293/2764-2860.2025.8509Palavras-chave:
Marinha do Brasil, Saúde Naval, Ciências da Saúde, MedicinaResumo
EDITORIAL
A obra seminal do médico e cientista alemão Rudolf Virchow, denominada “Die Cellularpathologie in ihrer Begründung auf physiologische und pathologische Gewebelehre”, publicada em 1858, legitimava a teoria de que a doença tem origem nas células. Esta obra foi o marco fundador da patologia celular moderna, como eixo explicativo para as doenças, contrapondo-se ao conceito de que as doenças se originavam do desequilíbrio de fluidos ou de humores. Um de seus princípios mais importantes é o de que toda célula vem de outra célula, Omnis cellula e cellula, e tinha a intenção de demonstrar que os processos de doenças celulares advêm de mudanças nas próprias células já existentes, não da geração espontânea de novas células. A continuidade histórica de Virchow à terapia celular-alvo, ilustra o reconhecimento da célula como unidade da doença, abrindo caminho para intervenções que miram diretamente os mecanismos celulares responsáveis por doenças complexas.
Ao longo do século XX, avanços em biologia celular, imunologia, técnicas de cultura e manipulação celular direcionaram a atenção da ciência para intervenções capazes de modular respostas celulares de maneira precisa. Nas últimas décadas, a medicina vem atravessando uma profunda transformação impulsionada por avanços da biotecnologia e das ciências moleculares. Entre os marcos mais notáveis desse novo paradigma está o desenvolvimento das terapias celulares, um campo que redefine os limites entre o tratamento e a cura, entre o processo de reparação celular e a reconstrução tecidual. O ponto alto dessa trajetória recente é a terapia celular-alvo, exemplificada pelas terapias CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cells), que reprograma linfócitos T do próprio paciente para reconhecer e eliminar células tumorais, representando uma aplicação direta do princípio de que entender e intervir nas células é central para o tratamento de doenças. Na esteira desse desenvolvimento destacam-se ainda o manejo de células-tronco, que são empregadas em diversas especialidades médicas para tratamento de doenças neurodegenerativas, cardiovasculares e hematológicas, na engenharia de tecidos para a cirurgia plástica reconstrutora e na ortopedia, além do uso experimental e testes farmacológicos para criação de modelos de doenças in vitro utilizando células-tronco pluripotentes induzidas, testes de toxicidade e eficácia de fármacos em tecidos humanos cultivados, reduzindo a necessidade de testes em animais, representando não apenas uma inovação tecnológica, mas também uma mudança conceitual na forma como compreendemos a doença e a saúde.
Da patologia celular de Virchow às terapias de célula-alvo contemporâneas, a trajetória científica mostra uma progressão lógica: entender a célula, modular seu microambiente e empregar ferramentas de bioengenharia para restaurar funções perdidas. No entanto, o avanço das terapias celulares também suscita desafios éticos, regulatórios e logísticos. A segurança, a reprodutibilidade e o custo de tais tratamentos ainda constituem barreiras importantes para plena incorporação na prática clínica. É papel da comunidade médico-científica na manutenção da promoção da integração responsável entre inovação e ética, garantindo que o progresso tecnológico se traduza em benefício humano real. Portanto, vive-se um momento singular na história da medicina, um tempo em que ciência e esperança se entrelaçam em busca de soluções que transcendam o tratamento convencional. Nesse cenário, a Era da Terapia Celular não é apenas o futuro da medicina, mas a materialização de décadas de pesquisa e a reafirmação do propósito essencial da profissão médica, promoção da cura e da restauração da qualidade de vida em toda a sua complexidade biológica e dignidade individual, sem perder a essência de aliviar a dor e o sofrimento humano – que, por vezes, são intangíveis –, mas que sempre poderão
ser mitigados com atenção e respeito, desde aquele que silenciosamente opera as bancadas de pesquisa até aquele que, no contato com o enfermo, presta a assistência.
CMG (RM1-Md) Marcos Floripes da Silva
Editor-Chefe da ABMN
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